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Pouco se fala disso, mas a internet no Brasil também comemora vinte anos junto com a Rio 92. Duas décadas atrás, a Eco 92 assistiu à operação de uma imensa rede que, à época, era nobre desconhecida da maioria da sociedade. A Internet (assim mesmo, com o I maiúsculo) era apenas uma “sub-rede”, como a Bitnet, a UUCP e a Fidonet. Para a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), uma das “mães” da internet brasileira, a Rio 92 marcou a transição para a vida adulta da internet brasileira – não à toa, está sendo lançado, durante a Rio+20, o projeto “Memória da Internet.Br”, belíssima criação da RNP em parceria com outros heróis que fizeram parte dessa história. Vinte anos depois, no entanto, a internet é outra – colaborativa, participativa, ela já se consolidou como ferramenta cidadã e aliada de primeira hora das causas sociais.

Rio+Social

Durante a Rio+20, o papel da internet em geral, e das redes sociais em particular, está sendo avaliado, debatido e também demonstrado. Nunca antes na História, parafraseando nosso ex-presidente, tivemos tanto poder. E mesmo que ainda não saibamos explorar ao máximo tanto potencial, os avanços são significativos. Só o fato de um evento dessa envergadura ter tido um dia inteiro dedicado às redes sociais – o Rio+Social – comprova que as ferramentas digitais já são indispensáveis na luta por melhores condições de vida no planeta. A pergunta que norteou todas as apresentações foi “como a tecnologia e as mídias sociais podem ser unidas para discutir, em nível global, ações de sustentabilidade para a construção de um mundo melhor?”. Muitas respostas foram dadas, mas ainda há muito dever de casa a ser feito.

O pontapé inicial foi dado em grande estilo. Que evento seria capaz de reunir, num mesmo ambiente, um Prêmio Nobel da Paz (Mohammad Yunus); uma celebridade internacional das redes sociais (Pete Cashmore, editor do Mashable); uma ex-presidente (do Chile) e ativista dos direitos da mulher (Michelle Bachelet) e um multimilionário das comunicações e fundador-presidente da Fundação das Nações Unidas (Ted Turner)? Isso sem falar no presidente da Virgin Records e ativista dos direitos humanos Richard Branson, para muitos o Tony Stark da “vida real”; um explorador de oceanos e ambientalista (Fabien Cousteau, filho de Jacques) e uma banda de rock (Linkin Park). Fora estes, havia celebridades do mundo real que são, ao mesmo tempo, heavy users de redes sociais, como o apresentador Luciano Huck e a embaixadora da Unicef e cantora Daniella Mercury.

E se a Rio+20 pode ter sido considerada uma grande incógnita, a Rio+Social foi um sucesso. Conseguiu, ao mesmo tempo, reunir cases e ideias e permitiu a troca de informações sobre projetos que usam a tecnologia e as mídias digitais na promoção de ações práticas. Também mostrou força na busca por soluções sustentáveis para os problemas que afligem o planeta, como a fome e a miséria, o desemprego, a corrupção, a falta de informação e formação em países pobres, as desigualdades gritantes, as catástrofes naturais e o descaso de governantes, dentre muitos outros.

Logo no começo dos trabalhos, uma frase lúcida deu o tom do que participantes e expectadores encontrariam nos debates e palestras da Rio+Social, que foi transmitida ao vivo e com qualidade pela internet (como não podia deixar de ser). Disse Fábio Barbosa, atual presidente do Grupo Abril: “podemos não estar deixando um planeta melhor para nossos filhos, mas deixamos filhos melhores para nosso planeta”. A sentença quer dizer que as gerações Y, Z etc já são e serão ainda mais conscientes quanto ao papel que desempenham nas transformações necessárias para a sociedade. As ferramentas capazes de gerar e incentivar um comportamento mais ativo e menos contemplativo já existem e é preciso tomar posse destas. Como bem disse Severn Suzuki, a vibrante garotinha que discursou aos 12 anos durante a Rio 92 (agora tem 32) e que voltou ao palco na Rio+Social, “as mídias sociais são um megafone para aqueles que estão comprometidos em denunciar problemas globais e encontrar soluções em conjunto para eles”.

Tema recorrente nas mesas foi a utilização das redes sociais como forma de pressionar governantes. Como disse Navi Pillay, Comissária para Direitos Humanos da ONU, “os poderosos não estão prontos para responder ao que consideram ‘pessoas invisíveis’ (ou seja, nós!)”. Também foram apresentados casos que usam a internet e seu poder “viral” para solucionar problemas graves do planeta, como a falta de acesso ao mais básico da infraestrutura.. A eletricidade, por exemplo, é o foco do Power the World, movimento lançado pela banda Linkin Park para levar energia elétrica a um milhão de famílias. Conheça o projeto Power the World neste vídeo.

O papel da mulher na sociedade e as (ainda existentes) disparidades de gênero e a SHEconomy (economia focada na mulher) também entraram na pauta, assim como a contracepção, o planejamento familiar e a saúde materna. Alain Labrique, professor da Johns Hopkins University, fez uma apresentação sobre a importância da saúde materna e a necessidade de se discutir o tema da contracepção. Outra grande palestra foi a de Kate James, chefe de comunicações da Fundação Bill & Melinda Gates, que cravou a frase “deixemos (as mulheres) de ser notas de rodapé” no coração da plateia. A Fundação Bill Gates, diga-se, tem como meta o acesso global e irrestrito a contraceptivos. Já Ted Turner afirmou que para mudar a realidade é preciso dar educação justa e mais voz para crianças e mulheres.

Outro projeto apresentado durante a Rio+Social foi o The Rules. Alnoor Ladha, chefe de estratégia da Purpose e co-fundador do programa, ressaltou a importância da utilização consciente das redes sociais no combate à fome e como ferramenta de pressão a governantes. E indagou se não estamos nos tornando “narcisistas digitais”. Disse ele que é preciso nos envolvermos mais em causas sociais que transformem a sociedade do que juntar amigos e nos promover no ciberespaço. “Estamos tão apaixonados pelos nossos perfis que esquecemos o verdadeiro poder das redes, que é mudar o sistema econômico e político”, disse ele. Essa também foi a dica de Muhammad Yunus para os jovens: “vocês são poderosos, podem usar isso aqui (a internet) para pressionar líderes, têm energia para isso”.

Fabien Cousteau foi o dono da frase que revela muito sobre os frutos que se espera colher na Rio+20 (e na Rio+Social): “Esta pode ser a década que resgatou o planeta. Meu nome é Fabien Cousteau e eu acredito em milagres”.

Já somos capazes de expressar nossas frustrações e dividir nossos desapontamentos na internet. As fronteiras já foram substituídas por conexões, como bem disse Leonardo Tristão, diretor de negócios do Facebook no Brasil. Já temos as ferramentas, a expectativa, a necessidade e a motivação para usar a internet a favor das grandes causas. Precisamos, no entanto, tentar enxergar além dos nossos umbigos digitais. No final das contas, esse foi o recado e o legado da Rio+Social.

Texto por Elis Monteiro

Via Techtudo

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